Há cerca de 20 anos atrás, Portugal estava a entrar numa das épocas de maior crescimento económico, prosperidade e de optimismo da sua história. Os anos 90 ficaram conhecidos como "os tempos das vacas gordas" - enquanto que a passagem para o século XXI ficou marcada com o início de uma longa crise que ainda vivemos.
Mas porque é que tivemos tanta prosperidade económica nessa época? Bom, em primeiro lugar, convém dizer que, até então, Portugal era um país muito atrasado. Por isso, quando os fundos da CEE permitiram a Cavaco Silva construir auto-estradas, abrir universidades e politécnicos e fazer novas escolas e hospitais, isso fez para nós toda a diferença, já que não possuíamos quase nenhumas infraestruturas.
Pela primeira vez, passou a ser comum tirar um curso superior. Pela primeira vez, o interior ficou ligado ao litoral através de uma rede de estradas decente. Pela primeira vez, passaram a existir canais de televisão independentes.
Os subsídios da CEE, apesar de serem muitas vezes mal gastos, permitiam aos jovens empreendedores criarem novas empresas sem terem de pôr uma corda ao pescoço (isto é, endividarem-se). O país estava a crescer tão depressa que a União Europeia até considerava Portugal o seu "bom aluno".
Assim, e apesar dos casos de corrupção envolvendo ministros (tanto durante o cavaquismo como no guterrismo), viva-se um clima de optimismo e de boa disposição em Portugal - o oposto do que se tem vivido nos últimos tempos (embora este optimismo tenha regressado temporariamente durante o Euro 2004).
Este clima de boa disposição era bem visível nos programas de televisão (onde hoje só se vêem talk-shows e telenovelas que falam exclusivamente e de forma sensacionalista sobre as desgraças da nossa sociedade), que eram tão "alegres" que às vezes se tornavam demasiadamente "pimbas". Até nos actos políticos se reflectia este bem-estar - basta pensar na inauguração da ponte Vasco da Gama, onde houve um almoço de feijoada que entrou para o Guinness.
O ponto alto desta época foi a Expo 98. Infelizmente, a partir daí, começou tudo a descambar. E é fácil perceber porquê. Em primeiro lugar, começou aquela que foi uma das décadas mais medíocres do últimos tempos. A década "do Pedro e do Lobo", como lhe chamo. Graças as diversos medos (terrorismo, epidemias, guerras, crises financeiras, etc.), a economia mundial estagnou, e Portugal não foi excepção.
Além disso, descobrimos que, afinal, Portugal não investiu tão bem os fundos comunitários como pensávamos. Parecia que o "bom aluno" tinha usado cábulas. Aquilo que deveria ter sido usado para transformar o tímido e desconfiado povo português num povo empreendedor e inovador foi gasto ou pelos políticos profissionais, ou pelos chicos-espertos.
A entrada para o euro não nos ajudou muito - os preços foram todos arredondados para cima e o governo perdeu o poder de desvalorizar a moeda. Consequentemente, os nossos produtos ficaram mais caros e o país perdeu competitividade.
Resta-nos aquele que, ironicamente, é um dos sentimentos mais portugueses: a Saudade (pois a Esperança já foi toda gasta no Sócrates)...
sábado, 10 de abril de 2010
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