segunda-feira, 25 de abril de 2011

A "Democracia" de Abril

Hoje comemora-se o dia da liberdade. O dia em que a ditadura foi derrubada. O dia em que Portugal se tornou num país democrático. Porém, observando o nosso percurso ao longo dos últimos trinta anos, eu pergunto-me: será que isto é, de facto, uma democracia? E será que um governo eleito democraticamente é superior aos outros?



Lembro-me que, nas legislativas de 2009, Manuela Ferreira Leite veio com aquela ideia disparatada de "suspender a democracia por uns meses". Ora, a verdade é que a "democracia" é suspensa, e não apenas por alguns meses - por norma, é por quatro anos (no caso do governo e das câmaras municipais) ou até por cinco (no caso do presidente). Ao menos no tempo do Guterres faziam-se alguns referendos ao povo. Pena é que nesta "democracia" não se tenham referendado coisas como a entrada no Euro, a construção do TGV ou as alterações à Constituição, por exemplo.



No tempo do Estado Novo também haviam eleições legislativas. Claro que ganhava sempre a União Nacional. Contudo, desde o 25 de Abril que quem ganha sempre as eleições é o PS ou o PSD. Que partilham basicamente a mesma ideologia. É isto a democracia? Dividimos a União Nacional em duas fatias, uma finge estar mais à esquerda, outra finge estar mais à direita, mas no fim de contas permanece tudo na mesma...



O Reino Unido está a organizar um referendo para aprovar um novo sistema eleitoral, onde os eleitores poderão votar em vários candidatos, ordenando-os segundo a sua preferência. Este sistema já é usado há muito na Austrália. E cá, será que algum dia irá haver uma democracia mais apurada?



Convém também dizer que não é por alguém ser eleito democraticamente que tem maior legitimidade para governar. Hitler foi eleito democraticamente. Isso não legitima as suas acções, só serve para envergonhar os alemães. Da mesma forma, o facto de George W Bush ter sido reeleito prova a estupidez da maioria dos americanos. O facto de PS e PSD continuarem a ser eleitos sucessivamente mostra o conformismo, a influenciabilidade e a falta de inteligência dos portugueses. Quando o povo é inculto, a democracia não é mais que a ditadura da maioria.


Para comentar, discutir ou criticar este post, visita o nosso fórum e vai a este tópico.

domingo, 17 de abril de 2011

A Grande Discórdia

Já não bastava a nossa economia ser uma miséria e o FMI vir-nos fazer uma visita, como agora os nossos políticos fazem questão de mostrar, uma vez mais, o que é mais importante para eles: os seus partidos, é claro.



Um país na nossa situação deveria tentar ser o mais amável possível para com a UE e o FMI. Deveríamos dar uma imagem de união, de espírito de sacrifício, de vontade em corrigirmos as nossas lacunas. Contudo, e apesar do contexto que atravessamos, os políticos não pensam assim.



Como é habitual desde o dia em que foram legalizados os partidos no nosso país, os nossos políticos - ou melhor, os nossos politiqueiros - dão prioridade aos seus interesses pessoais e partidários e só depois, se não der muito trabalho, lá vão desenrascando umas coisitas para o país.



Assim, Sócrates não cortou na despesa fútil do Estado, como os institutos públicos ou as empresas municipais que dão prejuízos crónicos, apenas devido aos facto de muitos boys do PS terem bons tachos nessas organizações. Da mesma forma, teimou em continuar com o TGV e com outras obras inúteis... provavelmente está à espera de um lugar na Mota Engil, como aconteceu com o seu amigalhaço Jorge Coelho.



Da mesma forma, Passos Coelho poderia negociado com Sócrates e evitar a vinda do FMI. Porém, a sede de poder da canalha do PSD estava a ficar incontrolável e, por isso, chumbou o PEC4, apesar de saber que o FMI iria pedir sacrifícios piores. Tudo isto para provocar eleições antecipadas e assim chegar ao pote.



O CDS, embora tente passar uma imagem de partido "responsável" e com "sentido de Estado", alinhou no chumbo do PEC4, pois sabe que vai aumentar os seus votos e que o PSD terá de o incluir no novo governo. Mais uma vez, o mais importante é alcançar um bom poleiro.



A esquerda radical, que se diz contra o FMI e contra o neoliberalismo, precipitou alegremente a queda do governo, embora soubesse das consequências - nomeadamente, que o próximo governo seria de direita. Isto na esperança de conseguirem mais uns lugares no parlamento. Enquanto isso, promovem greves dos transportes públicos, dificultando a vida a quem quer trabalhar.



Sinceramente, começo a ficar farto deste país. E o pior não é este comportamento dos políticos. O pior é que, apesar disto tudo, as pessoas vão continuar a votar neles. Será que ninguém reparou que há mais partidos disponíveis no boletim de voto? Como é possível ainda haver gente a votar PS, PSD, CDS, BE ou CDU? Acho que os finlandeses têm razão em não nos quererem ajudar; afinal, nós nunca aprendemos e continuamos a repetir os mesmos erros.



Para comentar, discutir ou criticar este post, visita o nosso fórum e vai a este tópico.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

A Falácia dos Ratings

Após reflectir bastante sobre a situação que Portugal atravessa, cheguei à conclusão que toda esta barafunda causada pelas agências de rating é uma enorme fantochada falaciosa que, se os nossos políticos tivessem a miníma criatividade, poderia ter sido resolvida com relativa facilidade e sem FMI. Passo a explicar:



Para começar, as agências de rating são empresas internacionais pagas pelos países para darem credibilidade à sua dívida, através dos ditos ratings, que assim permitem que os investidores aceitem comprar dívida pública.



Ora, seguindo uma lógica bastante aceitável, países que tenham maior dificuldade em pagar as suas dívidas têm um rating mais baixo. Como é menos provável que paguem o que devem aos investidores (isto é, o risco de incumprimento é maior), então há menos investidores interessados e, seguindo a lei da oferta e da procura, se há menos compradores, então os Estados têm de vender a sua dívida a juros mais altos.



Até aqui tudo parece seguir uma lógica bastante racional e acertada... até entrar em jogo o seguinte dado: todos os países que se achem em dificuldades podem chamar o FMI para os ajudar. E uma parte dos dinheiros que o FMI nos empresta são canalizados para pagar o que deve aos credores.



Ora, tal como já foi referido acima, as agências de rating avaliam os Estados consoante a probabilidade de não conseguirem pagar o que devem. Porém, Portugal, Grécia e a Irlanda nunca estiveram em perigo de não pagarem o que devem, na medida em que ainda têm a oportunidade de chamarem o FMI. Ou seja, nunca houve nenhuma hipótese real de estes países ficarem de facto a dever a quem lhes compra dívida.



Ou seja, as agências de rating não têm fundamento para cortarem a avaliação da nossa dívida, na medida em que nunca houve risco de incumprimento, graças à existência desse "trunfo" chamado FMI.



Porém, se esta falácia é prejudicial para Portugal, ela é benéfica para quem compra a nossa dívida pública. Já imaginaram o que é ganhar juros de 4, 5, 6 ou até 7%? Na economia real, investimentos com taxas de juro tão altas são negócios de risco, que tanto podem correr bem como deixar o investidor a ver navios. Mas, graças ao FMI, investir na dívida pública portuguesa é, neste momento, o negócio mais rentável do mundo: oferece taxas de juro altíssimas a risco zero.



Portugal vai pagar aos compradores da dívida pública. Quer o faça sozinho, quer o faça com a ajuda do FMI, mas está garantido que vai pagar, a tempo e horas, com juros. É por isso que é uma grande fantochada o facto de agências de rating baixarem a nossa avaliação com o argumento de que "o risco de incumprimento é elevado", quando na verdade ele é nulo.



Todavia, se os nossos políticos possuíssem alguma criativdade e algum atrevimento, teria sido fácil dar a volta à situação. Como eu já mencionei, o valor dos juros é definido pela lei da oferta e da procura. Se a procura aumentasse, os juros caíriam a pique. E como é que poderíamos aumentar a procura, perguntam vocês?



Bastaria que os nossos políticos tivessem explicado o que eu descrevi neste texto, demonstrando assim que o investimento mais rentável e mais seguro do planeta é, actualmente, a compra da dívida portuguesa. Depois, era simplesmente alterar a forma como os leilões são feitos...



...É que os leilões da nossa dívida não são leilões a sério, pois só meia dúzia de grupos económicos é que participam (basicamente, os nossos bancos). É claro que assim a procura é diminuta. Além disso, ocorre algo muito perverso: o Banco Central Europeu empresta dinheiro aos nossos bancos a uma taxa de 1 ou 2%, enquanto que eles depois nos emprestam a 5 ou 6%... e depois andam a mandar bitaites, como se tivessem moral para o fazer.



Se os leilões fossem abertos a toda gente interessada em comprar porções da nossa dívida, e se os nossos governantes usassem o tempo de antena para pôr a nú o facto de que, graças ao FMI, o "risco de incumprimento" é nulo e que não há mais nenhum negócio onde se ganhem juros de 5 ou 6% com tanta segurança, tenho a certeza de que as agências de rating já se teriam calado, o FMI estaria afastado, e os juros da dívida pública, graças à lei da oferta e da procura, teriam finalmente descido para valores razoáveis.



Para comentar, discutir ou criticar este post, visita o nosso fórum e vai a este tópico.