Por norma, diz-se que existem dois níveis de cultura: a erudita e a popular. A erudita é apresentada como algo positivo e que deve ser promovido, enquanto que a popular possui menor valor e, por isso, merece desprezo.
Todavia, esta divisão falha num ponto: ela omite o meio-termo, ou seja, a cultura mainstream, frequentemente chamada de "comercial" - da mesma forma que se chama "pimba" à popular e "pseudo-intelectual" à erudita.
Ao contrário do que é dito, a cultura erudita não é a mais "positiva". Ela é a mais elevada, isso sim - de facto, até é demasiado elevada. Da mesma forma que a cultura popular é a mais acessível - acessível demais, aliás. Já a cultura mainstream é a que está no meio e, como dizia Aristóteles, no meio é que está a virtude.
Em primeiro lugar, isto significa que não há nada mais fútil do que aquelas discussões entre fãs de bandas ou escritores mainstream, dizendo que autor tal se tornou "comercial" ou que determinado músico é demasiado "intelectual". É que fazer tais distinções é o mesmo que estar a dizer que fulano tal é mais do norte enquanto que beltrano é mais do sul - para todos os efeitos são portugueses, tal como todos os artistas de rock, metal, hip-hop, pop, e reggae fazem parte da cultura mainstream, por exemplo.
Por isso, se alguém me vem dizer que os Pearl Jam se tornaram comerciais, a minha resposta será: "Ai é? Não me digas que antes eles tocavam Mozart ou Bach!"
Porque o rock é um exclusivo da cultura mainstream, assim como a música clássica e a chamada "world music" são exclusivas da cultura erudita, e a música pimba e dos ranchos folclóricos são parte da cultura popular.
Curiosamente, estas três formas de cultura não são estáticas, e não é raro vermos os dois extremos (eruditos e populares) a formarem uma aliança. Exemplo disso é o fado, que começou como popular e agora é erudito.
Ora, o Ministério da Cultura, que tem o dever de promover a cultura em Portugal, é altamente discriminatório em relação à cultura do meio-termo. Grande parte dos subsídios deste Ministério vão direitinhos para os artistas pseudo-intelectuais da cultura erudita - por exemplo, cineastas como o falecido João César Monteiro (realizador da "obra" "Branca de Neve").
A prova que a cultura erudita não é superior está no facto de ela não ser a forma de cultura dominante nos países desenvolvidos. Na Europa, América do Norte e Japão, é a cultura mainstream a principal - isto porque essa é a cultura da classe média. Assim, países com maior proporção de artistas mainstream são países com uma maior classe média, ou seja, menos desigualdades sociais.
Já o Brasil, que é um país em desenvolvimento e com desigualdades gritantes, além de ter uma forte cultura popular (samba, telenovelas), tem também uma forte cultura erudita (afinal, eles criaram a famosa Bossa Nova). Já a cultura mainstream tem muito menos peso - pois a classe média é pequena.
E é pelo facto da cultura mainstream ser um sintoma de bem-estar da classe média (e, consequentemente, de toda a sociedade do próprio país) que eu a defendo. Até porque, como já referi acima, ela é o meio-termo entre as outras duas culturas. Isso não significa que os artistas eruditos e populares tenham menos valor - até porque, como se diz, "gostos não se discutem" - contudo, creio que o Ministério da Cultura deveria acabar com os seus preconceitos e ajudar todos os artistas por igual, e não dar preferência aos eruditos (em tempos de crise, mais valia não se gastar dinheiro do que dá-lo a apenas uma das formas de cultura).
segunda-feira, 12 de abril de 2010
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