segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Portugal Regressa aos Anos 70

Se os políticos não alterarem, durante a próxima década, o tipo de medidas que aplicam no nosso país, temo que Portugal regresse ao nível de instabilidade economócia e social que caracterizou os anos 70 e início dos anos 80... com a grave diferença que, naquela época, safámo-nos quando entrámos na CEE, solução que agora não está disponível.



O facto é que Portugal é, economicamente falando, insustentável. Em primeiro lugar, endividamo-nos cada vez mais e com juros progressivamente mais elevados. Isto significa que, para pagarmos o que devemos, a nossa economia teria de crescer bastante, coisa que, com as políticas defendidas pelo PS e pelo PSD, não irá acontecer. Pelo contrário, a economia portuguesa irá continuar a regredir. Ou seja, o FMI virá visitar-nos, e não será uma só vez, serão várias.



A nível demográfico, a coisa também não é muito animadora. As políticas de natalidade apenas dão apoios significativos àqueles que vivem dependentes da Segurança Social (por exemplo, o pessoal do rendimento mínimo). Ou seja, multiplicam-se os parasitas e não quem é produtivo para a sociedade. Por outro lado, a população envelhece, reforma-se... e os idosos duram cada vez mais - antigamente morria-se aos 80, agora é aos 100. Mais vinte anos de reforma que o Estado tem de pagar.



O pior é que, como a economia é atrasada, os jovens qualificados emigram (e não voltam), e os que não se vão embora ganham pouco e trabalham em empresas que não contribuem em nada para o desenvolvimento do país - centros comerciais, super e hipermercados, call centers dos bancos e das empresas de telecomunicações, construção civil. Assim, a Segurança Social irá ter um défice cada vez maior, enquanto que a economia não só estagna, como também irá regredir progressivamente.



Já muitas vezes apontei um caminho para resolver estes problemas: um maior investimento estatal para a criação de novas empresas que contribuam para o saldo positivo da nossa balança comercial, bem como uma maior divulgação dos mecanismos de financiamento e até incentivos para o empreendedorismo por parte de jovens qualificados das classes baixa e média (e até para outras pessoas que tenham ideias inovadoras). Era nisto que o deus Cavaco e que o porreiro Guterres haviam de ter gasto os fundos da CEE.


É certo que para o Estado financiar a criação de novas empresas, participando como sócio (o que, mais tarde, traria retornos financeiros directos para o Estado quando as empresas começassem a ter lucro), é necessário que haja dinheiro. Pois bem, bastava cancelar o TGV, privatizar parcialmente empresas como os CP ou a TAP, regular e taxar a prostituição e a venda de drogas leves, criar um imposto sobre grandes empresas que não produzam bens transaccionáveis, cortar a mama à malta do rendimento mínimo, estabelecer um salário máximo na função pública, controlar eficazmente os gastos das câmaras e dos institutos públicos, diminuir gastos com as Forças Armadas e com o Ministério da Cultura, fazer com que condenados estrangeiros cumpram a pena no país de origem, etc.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

A Moção de Censura

O Bloco de Esquerda decidiu tentar dar nas vistas. Algo que não é de admirar, ou não fossem eles políticos profissionais. Desta vez, decidiram fazer algo bastante interessante: anunciaram que, daqui a um mês, vão propor uma moção de censura. Se a moção for aprovada pelo parlamento, o governo cai.



Toda a gente está à espera que o governo de Sócrates caia, mas isso não acontecerá com esta moção. Isto porque o PSD não a vai aprovar. E porquê? A razão oficial é o facto do PSD não concordar com os ideais da esquerda radical, e por isso não cabe na cabeça de ninguém eles apoiarem uma proposta do Bloco. Todavia, esta razão é só uma desculpa. É que Passos Coelho ainda não quer que o governo caia.



Em primeiro lugar, porque a crise ainda não está controlada o suficiente, e o líder social-democrata prefere que seja Sócrates a sacrificar a sua já desgastada imagem, pondo em prática as impopulares medidas de austeridade.



Em segundo lugar, e quiçá a razão mais importante, é o facto das sondagens ainda não darem maioria absoluta ao PSD. "Ainda", pois Passos Coelho está à espera que isso aconteça. Porém, parece-me que o neoliberalismo descarado que o líder social-democrata exibiu quando veio falar da revisão constitucional possa vir a dar-lhe uma surpresa desagradável.



Todavia, o facto da direita não aprovar esta moção de censura poderá vir a ter resultados inesperados. Tendo em conta a distribuição de lugares do nosso parlamento, para aprovar uma moção de censura é preciso que toda a oposição vote a favor. Ora, imaginemos que, daqui a uns tempos, quando as sondagens já forem mais simpáticas para o PSD, Passos Coelho lança uma moção de censura. Agora imaginem que o BE e a CDU não votam a favor - afinal, se a direita não votou na moção do BE, porque há-de a esquerda votar na do PSD?



Ou seja, se Sócrates tiver sorte e for inteligente, ainda é capaz de se aguentar mais tempo do que pensávamos. Isto para não falar que cada vez parece menos provável que Passos Coelho consiga uma maioria absoluta (estarão os eleitores portugueses a começar a ganhar juízo?). Ou o CDS consegue votos suficientes para dar uma maioria absoluta ao PSD através de uma coligação, ou, ironia das ironias, Passos Coelho ficará na mesma situação que Sócrates está a viver actualmente: ser primeiro-ministro de um governo minoritário.


Comenta e debate este tema em:
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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Outra Década Perdida?

Não gosto de ser agoirento, mas temo que a década de 2010 seja outra década perdida para Portugal. E a culpa não é tanto da crise mundial, mas sim dos políticos. Mais uma vez, os políticos portugueses cometem o erro de se limitarem a copiar medidas estrangeiras, em vez de usarem a própria cabeça e, tendo em conta a realidade do nosso país, conceberem medidas originais para resolver os nossos problemas.



Dito isto, é preciso ver que, na verdade, não foi só a década de 2000 que foi uma "década perdida". Na minha opinião, a grande oportunidade perdida foram os fundos comunitários que, nas décadas de 80 e 90, foram esbanjados em coisas que, sendo necessárias, deveriam ter sido deixadas para mais tarde.



Os portugueses costumam lembrar o cavaquismo e o guterrismo como "a década de ouro", e, se por um lado se critica o compadrio, nepotismo e corrupção generalizados dessa época, por outro gabam-se investimentos como a construção de auto-estradas e a ampliação das universidades e dos politécnicos. Contudo, se pensarmos bem, foram exactamente esses investimentos que foram o grande erro dos anos 90, e por causa deles que desde 2001 Portugal se encontra em crise perpétua.



É óbvio que é positivo um país ter uma boa rede de estradas e várias instituições de ensino superior; porém, começar o desenvolvimento dum país a partir daí é o mesmo que começar a construção de uma casa pelo telhado. Para quê, pergunto eu, dar milhões à máfia da construção civil para esta encher o país de estradas, quando não há nada de importante para ser transportado? Para quê esturrar milhões com bolsas para estudantes, ordenados para professores e obras em politécnicos e universidades, quando não há empresas que precisem de mão-de-obra qualificada?



Claro que Cavaco, Guterres e os seus compinchas não pensaram nestas questões óbvias. Aliás, na óptica desses "génios" que são os economistas, estes investimentos eram muito bons e iriam garantir o desenvolvimento de Portugal. Nota-se! É aqui que nos devemos lembrar que a economia é uma ciência social, e não uma ciência exacta. Ou seja, lá porque na Alemanha, no Reino Unido e nos EUA a construção de estradas e a maior qualificação da população desenvolveram a economia, não quer dizer que o mesmo venha a acontecer em Portugal.



Num país onde as grandes empresas são supermercados e construtoras civis, é evidente que as únicas pessoas qualificadas que são precisas são engenheiros civis e gestores de loja. Da mesma forma, um país destes não produz nada que possa ser exportado, e por isso não precisa de melhores vias de comunicação.



Aumentar a qualificação dos jovens apenas fez com que o ensino superior perdesse prestígio, dado que agora toda a gente tira um curso e, ainda por cima, fica no desemprego - ou seja, em Portugal, ter uma licenciatura é quase como ter o 12º nos EUA, por exemplo. Por outro lado, a existência de mais auto-estradas apenas facilita o aumento das importações, que se entranham no país mas facilmente, e o abandono do interior, já que as pessoas começam a trabalhar no litoral e acabam por mudar-se para lá.



Os fundos da CEE não deveriam ter sido gastos assim. Deveriam ter sido canalizados para a grande fraqueza do país, que é falta de exportações e a mentalidade pouco empreendedora dos portugueses. Portugal teria hoje uma economia forte e respeitada se os milhões comunitários tivessem sido investidos em sociedades de capitais de risco, em investigação científica e desenvolvimento tecnológico, na aposta em produtos inovadores e de qualidade - nem que, numa primeira fase, tivesse de ser o próprio Estado a criar as empresas, caso os privados se acobardassem.



Porém, e ao contrário dos agoirentos, eu acredito que ainda é possível mudar esta situação e corrigir o que está errado em Portugal. Nos próximos posts irei demonstrar como Portugal poderia apostar em sectores inovadores, ainda estão pouco explorados, que poderiam levar a um grande desenvolvimento da nossa economia.



Contudo, é claro que não acredito que as minhas propostas sejam ouvidas por quem interessa... infelizmente, somos governados por uma rosa que quer repetir o erro e construir um TGV, e na oposição temos uma laranja cega que acha que "o Estado não se deve envolver na economia".