sábado, 24 de julho de 2010

O Ensino Preparatório

Há poucas semanas atrás, foi noticiado que o ensino preparatório vai sofrer alterações. Todavia, na prática, fica tudo na mesma, a única coisa que muda é a divisão entre 2.º e 3.º ciclos. De resto, aquilo que é mais importante - o que é ensinado - permanece igual.



Já passaram muitos anos desde o tempo em que andei no ensino preparatório; contudo, pelo que sei, não houve grandes alterações - à excepção da disciplina de informática, que não existia no meu tempo, bem como uma data de outras "disciplinas" de utilidade duvidosa: formação cívica, estudo acompanhado e área de projecto.



Segundo as minhas fontes, o "estudo acompanhado" consiste em obrigar os alunos a estarem numa sala durante duas horas para, supostamente, fazerem os trabalhos de casa, podendo contar com a ajuda do professor. Ora, a ideia é boa, mas o verdadeiro resultado é este: os alunos fazem os trabalhos na primeira meia hora da aula (claro que também há quem tenha feito e também quem prefira fazê-los em casa). O resto da longa aula serve para se colocar a conversa em dia.



A disciplina de "formação cívica", dada normalmente pelo director de turma, é também uma longa aula cuja finalidade é um mistério. Também foi criada com boas intenções, mas, tal como estudo acompanhado, acaba por servir para os alunos conversarem um pouco. Eventualmente, lá farão algum trabalho sobre um tema politicamente correcto, mas acaba por ser sempre tempo perdido.



Área de projecto será, talvez, a mais útil - ou melhor, a menos inútil - destas três curiosas disciplinas. Aqui os alunos aprendem como deve ser estruturado um trabalho e, normalmente, até realizam um pequeno trabalho de pesquisa. Todavia, isto leva-me a perguntar: será que era preciso criar uma disciplina para isto? Não poderia esta matéria ser enquadrada noutra disciplina? Língua portuguesa, por exemplo.



Ora, estas três disciplinas tem pouca utilidade e, ainda por cima, aumentam a já pesada carga horário dos alunos. Não é de admirar que continuem a haver estudantes a ganhar aversão à escola e a questionar a utilidade da matéria leccionada.



Como sabem, e ao contrário da maioria dos outros comentadores, eu gosto de apresentar alternativas. Eis como, na minha modesta opinião, deveria estar organizado o ensino preparatório (ou seja, do 5.º ao 9.º anos de escolaridade):


- Diminuir o peso de teoria inútil na matéria leccionada. Existem dois tipos de teoria: há a teoria útil e essencial para compreender matérias mais avançadas (aqui enquadra-se a teoria de disciplinas como matemática, físico-química, ou ciências naturais); e depois há a teoria inútil, como a que é dada em língua portuguesa e que não tem aplicações práticas.


- Incluir matérias que, por razões misteriosas, não são abordadas na actualidade. Aqui inclui-se matérias ligadas à economia, contabilidade e gestão, que poderiam perfeitamente começar a ser ensinadas no 8.º ano, enquadradas em matemática e em geografia.


- Ensinar o modo de funcionamento do Estado - os impostos, a segurança social, as conservatórias, os tribunais, a polícia, o serviço nacional de saúde, a política, entre outros. E, já agora, quais as burocracias necessárias para criar uma empresa ou quais os direitos e deveres consagrados por um contrato de trabalho, por exemplo.


- Diminuir gradualmente o número de aulas de educação física. Ou seja, um aluno do 9.º teria menos aulas que um do 5.º ano. Isto porque não será no 9.º que se irá incutir o gosto da prática do desporto em quem nunca desenvolveu esse hábito. Mais vale poupar esse tempo e gastá-lo em disciplinas mais úteis.


- Ensinar os alunos a cozinhar. Eu sei, à primeira vista parece um disparate. Mas pensem comigo: se já há uma disciplina onde se ensina a serrar e a lixar (EVT) e a fazer biscates eléctricos (educação tecnológica), porque não uma disciplina para ensinar a cozinhar, aí no 7.º ou no 8.º ano? Até porque nem todos os pais têm tempo e/ou paciência para ensinar isto os filhos.


- Em matemática, apostar mais em problemas práticos do que em exercícios abstractos. Sabem porque só há a disciplina de filosofia para alunos do secundário? Porque, antes dessa idade, as crianças/jovens são incapazes de pensar em coisas abstractas. Por isso é que os problemas em matemática deviam basear em questões práticas, ligadas a, por exemplo, gestão, engenharia ou estatística. Isto iria não apenas melhorar a aprendizagem, como também aumentar a motivação dos alunos, que assim iriam compreender a utilidade desta disciplina.


- Em língua portuguesa, ensinar a redigir cartas, actas, relatórios, currículos, trabalhos científicos, textos argumentativos, artigos jornalísticos, e, se houver tempo, textos de escrita criativa. Isto seria muito mais útil do que decorar quais as funções sintácticas ou o que são palavras homófonas.


- Em história, em vez de pedir que as crianças/jovens decorem datas e acontecimentos históricos que não compreendem, ensinar a "essência" de cada época da história da humanidade - como era o quotidiano da época medieval, por exemplo - quais os costumes, a mentalidade, o estilo arquitectónico, a roupa, as divisões políticas, as questões centrais daquela sociedade, etc.

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