Não gosto de ser agoirento, mas temo que a década de 2010 seja outra década perdida para Portugal. E a culpa não é tanto da crise mundial, mas sim dos políticos. Mais uma vez, os políticos portugueses cometem o erro de se limitarem a copiar medidas estrangeiras, em vez de usarem a própria cabeça e, tendo em conta a realidade do nosso país, conceberem medidas originais para resolver os nossos problemas.
Dito isto, é preciso ver que, na verdade, não foi só a década de 2000 que foi uma "década perdida". Na minha opinião, a grande oportunidade perdida foram os fundos comunitários que, nas décadas de 80 e 90, foram esbanjados em coisas que, sendo necessárias, deveriam ter sido deixadas para mais tarde.
Os portugueses costumam lembrar o cavaquismo e o guterrismo como "a década de ouro", e, se por um lado se critica o compadrio, nepotismo e corrupção generalizados dessa época, por outro gabam-se investimentos como a construção de auto-estradas e a ampliação das universidades e dos politécnicos. Contudo, se pensarmos bem, foram exactamente esses investimentos que foram o grande erro dos anos 90, e por causa deles que desde 2001 Portugal se encontra em crise perpétua.
É óbvio que é positivo um país ter uma boa rede de estradas e várias instituições de ensino superior; porém, começar o desenvolvimento dum país a partir daí é o mesmo que começar a construção de uma casa pelo telhado. Para quê, pergunto eu, dar milhões à máfia da construção civil para esta encher o país de estradas, quando não há nada de importante para ser transportado? Para quê esturrar milhões com bolsas para estudantes, ordenados para professores e obras em politécnicos e universidades, quando não há empresas que precisem de mão-de-obra qualificada?
Claro que Cavaco, Guterres e os seus compinchas não pensaram nestas questões óbvias. Aliás, na óptica desses "génios" que são os economistas, estes investimentos eram muito bons e iriam garantir o desenvolvimento de Portugal. Nota-se! É aqui que nos devemos lembrar que a economia é uma ciência social, e não uma ciência exacta. Ou seja, lá porque na Alemanha, no Reino Unido e nos EUA a construção de estradas e a maior qualificação da população desenvolveram a economia, não quer dizer que o mesmo venha a acontecer em Portugal.
Num país onde as grandes empresas são supermercados e construtoras civis, é evidente que as únicas pessoas qualificadas que são precisas são engenheiros civis e gestores de loja. Da mesma forma, um país destes não produz nada que possa ser exportado, e por isso não precisa de melhores vias de comunicação.
Aumentar a qualificação dos jovens apenas fez com que o ensino superior perdesse prestígio, dado que agora toda a gente tira um curso e, ainda por cima, fica no desemprego - ou seja, em Portugal, ter uma licenciatura é quase como ter o 12º nos EUA, por exemplo. Por outro lado, a existência de mais auto-estradas apenas facilita o aumento das importações, que se entranham no país mas facilmente, e o abandono do interior, já que as pessoas começam a trabalhar no litoral e acabam por mudar-se para lá.
Os fundos da CEE não deveriam ter sido gastos assim. Deveriam ter sido canalizados para a grande fraqueza do país, que é falta de exportações e a mentalidade pouco empreendedora dos portugueses. Portugal teria hoje uma economia forte e respeitada se os milhões comunitários tivessem sido investidos em sociedades de capitais de risco, em investigação científica e desenvolvimento tecnológico, na aposta em produtos inovadores e de qualidade - nem que, numa primeira fase, tivesse de ser o próprio Estado a criar as empresas, caso os privados se acobardassem.
Porém, e ao contrário dos agoirentos, eu acredito que ainda é possível mudar esta situação e corrigir o que está errado em Portugal. Nos próximos posts irei demonstrar como Portugal poderia apostar em sectores inovadores, ainda estão pouco explorados, que poderiam levar a um grande desenvolvimento da nossa economia.
Contudo, é claro que não acredito que as minhas propostas sejam ouvidas por quem interessa... infelizmente, somos governados por uma rosa que quer repetir o erro e construir um TGV, e na oposição temos uma laranja cega que acha que "o Estado não se deve envolver na economia".
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
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