sábado, 25 de setembro de 2010

A República: Cem Anos de Incompetência

Hoje comemoram-se, com grande pompa e circunstância, os cem anos da república. Fala-se tanto neste centenário, que o cidadão comum fica até com a sensação que a primeira república foi um marco que revolucionou a nossa história.



Todavia, a verdade é que, se há alguma coisa que a primeira república nos deixou, foi o exemplo daquilo que a classe política não deve nunca fazer se pretende ser respeitada e se deseja realmente desenvolver o país.



Em primeiro lugar, aquilo que se comemora hoje não foi uma revolução, mas sim um golpe de estado realizado por aquilo a que hoje se chamariam terroristas - os carbonários - e encabeçado por uma elite intelectual, totalmente desligada das reais dificuldades do povo português - os republicanos.



Quem eram, afinal, os republicanos? Heróis da história da democracia portuguesa? Longe disso. Os líderes do partido republicano português, eram, na melhor das hipóteses, idealistas incapazes de acordar para a realidade do país. Todavia, muitos eram apenas populistas e demagogos sedentos de poder, não hesitavando em usar a violência para alcançarem os seus objectivos pessoais.



Aquilo que muitos portugueses não sabem é que Portgugal já era uma democracia há mais de meio século. O rei português não tinha muito mais poder do que a actual rainha de Inglaterra. Haviam eleições livres e haviam vários partidos. A ideia de que foi a primeira república que trouxe a democracia é um disparate.



Ironicamente, os últimos anos da república podem ser comparados com a última década do nosso país. Havia crise, havia instabilidade política, havia um monstruoso défice orçamental. Haviam também dois grandes partidos que se alternavam no poder - o Partido Progressista e o Partido Regenerador (um pouco como os actuais PS e PSD). Já o famoso partido republicano conseguia eleger apenas dois ou três gatos-pingados pelo círculo de Lisboa. As únicas eleições que os republicanos ganharam foram as autárquicas de Lisboa.



Neste contexto, o partido republicano português era um partido radical, com pouca visibilidade fora das elites intelectuais de Lisboa. Podemos comparar a importância e o comportamento deste partido com o do actual PNR. Apesar de terem uma ideologia diferente, os republicanos tinham grandes semelhanças com o PNR: era um partido pequeno, era populista, tinha ideiais radicais e era apoiado por movimentos violentos.



Tal como o actual PNR, que culpa os imigrantes por todos os nossos males, também o partido republicano tinha um bode expiatório para a crise - a monarquia. Contudo, da mesma maneira que o PNR não deixa de estar certo em relação a algumas das críticas que faz à imigração, também é preciso dizer que os republicanos tinham várias boas razões para criticar o rei. Contudo, isso não lhes dava o direito de acabar com a monarquia, da mesma forma que o PNR também não tem o direito de acabar com a imigração.



A crença republicana de que, ao substituir o rei por um presidente, a crise ia milagrosamente acabar - certamente julgavam que passaria a chover ouro e que do chão cresceriam diamantes - é uma ideia estúpida, especialmente se tivermos em conta que quem realmente governa - quer na monarquia, quer na república - é o primeiro-ministro, que já era escolhido através de eleições legislativas.



Assim, a pressa repúblicana em mudar de chefe de estado - uma medida básicamente simbólica, já que nem rei nem presidente possuem grande poder político -, em plena crise financeira, é apenas comparável à pressa do bloco de esquerda em alterar as leis que regulam os transexuais, quando devia era de estar preocupado com o orçamento de estado.



Os republicanos, além de possuírem uma ideologia demasiado idealista, eram também desavergonhadamente demagógicos. Antes de chegarem ao poder, prometeram a melhoria das condições de vida aos operários, apesar de saberem que a crise que o país atravessava iria tornar isso impossível. Prometeram dar mais direitos às mulheres, mas acabaram por negar-lhes o direito ao voto. Prometeram maior liberdade religiosa, mas acabaram perseguindo clérigos e reprimindo manifestações cristãs. Prometeram tornar Portugal num país mais democrático, mas censuraram a imprensa e prenderam opositores políticos (isto quando não os matavam).



Para chegarem ao poder, os republicanos alimentaram o monstro do terrorismo. A carbonária fez todo o trabalho sujo: mataram o rei e o príncipe herdeiro e organizaram o golpe de estado de 5 de Outubro. Tudo em troca da melhoria das condições de vida dos operários. Claro que, quando chegaram ao poder, os republicanos nem se preocuparam com os direitos dos trabalhadores, nem tinham a capacidade de colocar em prática medidas para desenvolver a economia, dado que a sua "ideologia" se resumia ao ódio à monarquia e à Igreja e não tinha soluções para os reais problemas do país: o défice, o analfabetismo, a debilidade da economia.



Os republicanos faziam parte da elite - eram meninos mimados, que viviam bem e que nunca trabalharam na vida. Estavam-se a marimbar para o povo. O problema é que o feitiço virou-se contra o feiticeiro e, quando os terroristas se aperceberam que tinham sido manipulados pelos republicanos, decidiram colocar o país a ferro e fogo - algo que só terminaria em 1926.



A situação piorou com a entrada de Portugal na Primeira Grande Guerra. Não deixa de ser irónico que os republicanos, que haviam criticado duramente a monarquia por ceder ao ultimato inglês, tivessem acabado eles próprios por se rebaixar perante as exigências das potências estrangeiras.



Apesar da suposta democracia da primeira república, o facto é que só havia um partido - o partido repúblicano português. Que raio de democracia esta em que só existe um único partido! E pensar que na monarquia havia multipartidarismo! Foi preciso fazer um golpe de estado - o 5 de Outubro - e acabar com os partidos concorrentes para que os republicanos conseguissem ganhas as eleições legislativas. Apesar disso, e devido principalmente à sede de poder, o partido republicano dividiu-se. É como se, hoje em dia, só houvesse o PSD, mas este se dividisse em partido Passos-Coelhista, partido Santanista, e partido Ferreira-Leitista.



Em suma, para que o cidadão comum perceba o que aconteceu há cem anos:

Imaginem que um bando de terroristas se infiltravam nos quartéis militares da capital e faziam um golpe de estado, dando o poder a um partido pequeno, o PRP.
Imaginem que o povo, estando farto da crise e do PS e PSD, e apesar de não gostar muito do PRP (a maior parte nem sabe que este partido existe), ficava indiferente e deixava o golpe de estado vencer.
Imaginem que o PRP proibía todos os outros partidos, criava uma milícia para perseguir opositores, censurava os meios de comunicação e, cúmulo dos cúmulos, alterava os símbolos nacionais: o hino actual era substituído por uma hino do PRP, o euro era substituído por uma nova moeda, e até as cores da bandeira eram substituídos pelas cores do PRP.
Imaginem que o PRP não fazia nada para acabar com a crise e, ainda por cima, envolvia Portugal em guerras estrangeiras.
Imaginem que haviam eleições, mas os únicos partidos existentes eram o PRP e algumas cópias deste.
Imaginem que o PRP deixava de conseguir controlar as suas milícias e os seus grupos terroristas, e que estes começavam a semear a anarquia nas grandes cidades.
Imaginem que este suplício durava 16 anos e que, durante todo este tempo, nenhum governo do PRP tinha conseguido cumprir o seu mandato até ao fim, devido a querelas internas.

Isto foi o que aconteceu. Se merece ser comemorado? Talvez, mas nesse caso, porque não comemorar também o Vintismo, a Carta Constituicional ou até o Estado Novo?

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